Críticas

Pintor Jaime Silva, Caxias, 10 de Fevereiro de 2004

Como se perceberá, o que designamos de “Mundo”, constitui-se como questão em aberto. Permanentemente.

Quero dizer, que vivemos as circunstâncias a que chamamos História, e no seu âmbito situamos dúvidas e formulamos interrogações que nos definirão como seres de uma época e não de outra qualquer.

Entenda-se por isso que a história cultural, e neste caso de Arte, esteja sujeita a tergiversações e tentames regulares de definição paradigmática.

Assim se constituiu no Ocidente aquele espaço de assaz longa fortuna dito espaço de visão perspéctico, ou dos corpos e coisas escalonados matematicamente em superfície bi-dimensional, à semelhança ou pretensamente – de uma visão “natural” e naturalizante.

E posto que a exigência dos tempos, do vivido, não se compadece com apriorismos mesmo que exaltantes, a(s) época(s) de rebelião ganharam para nós tensas interrogações artísticas, consubstanciadas nesses espaços pós-impressionistas, cézanneanos e cubistas, que desbravaram e moldaram uma outra história do olhar, de olhar interrogante e analítico a espaços projectivos, e outros, de mais recente investigação.

Constituiu-se assim, uma História de Arte (recente), em que experimentação – metódica e como metodologia, ganhou foros de artisticidade e até autenticidade.

Vale isto, como prólogo, a sucinta análise da exposição do Hélder Mendes, que constituída por peças de 1995 a 2004, assume quase a dimensão de um Percurso pela obra de um jovem, esforçado e talentoso autor que, autodidacta, encontrou-se e encontrou uma resposta a interrogações e apelos vários, enquadráveis em geral, num discorrer sobre matérias e sua organização, sem no entanto dispensar referências externas a essa gestão como mote a glosar (princípio e talvez limite), de um processo criativo, dinâmico e auto-afirmativo.

Referências várias serão detectáveis Pollock, outros expressionismos, Tàpies, os novos realistas franceses mas o que adquire maior visibilidade é essa capacidade do Hélder Mendes, se situar de imediato na inter-ligação do racional, do orgânico, do experimental, numa gestão improvável de acasos (bem) controlados como se comprova nas e pelas peças expostas.

Não é despiciendo afirmar que em acordo com os pressupostos referidos, se situem estas obras na confluência de Pintura e Escultura, superfície e relevo, cor e não cor, adquirindo assim complexidade interna, que pela sua própria gestão, exige participação interveniente do espectador.

Nuno Lima de Carvalho, Fevereiro de 2002

Das muitas atribuições do director de uma galeria de Arte, uma das mais difíceis – se não a mais difícil – é ajuizar da consistência de um primeiro trabalho apresentado por alguém que se não conhece, nem dispõe do suporte de outras obras realizadas, alguma exposição já feita em espaço que mereça crédito, frequência de escola – embora essa seja uma valia de bem pequena relevância, porque cada vez mais se vai provando que os artistas nascem e não se fazem, além de outras valências que sempre ajudam a fazer um juízo correcto do candidato.

Na maioria dos casos, a apresentação de um ou dois trabalhos é suficiente para dizermos com segurança se tem ou não tem pernas para andar e acrescentar, no primeiro caso: trabalha, trabalha e esforça-te. Ou então dizer, sempre com mágoa: a pintura, a escultura, o desenho não são o teu futuro.

Quando o Hélder Mendes me apareceu, pela primeira vez, vai a caminho da dezena de anos, ainda lhe faltavam alguns para, em idade, chegar aos 20, apresentou um trabalho que me surpreendeu e, talvez, por comodidade ou temor de errar, porque ele expunha ao lado de qualificados finalistas de escolas superiores de Belas Artes, dei-lhe o benefício da dúvida

Os anos passaram. Fui acompanhando sempre com interesse o seu percurso, que logo reconheci reforçado por um interessante trabalho de pesquisa; a sua férrea força de vontade, que depressa depreendi apoiada pelo suporte de um verdadeiro talento, que transparecia em cada novo trabalho. Impressionou-me a sua alegria de ir construindo, tijo­lo a tijolo, o seu próprio habitáculo no Mundo da Arte.

Quando se é artista, qualquer matéria serve. Recordo-me como Thomaz de Melo/Tom transformava em obra de Arte uma pedra da calçada, ou de como Martins Correia, com três ou quatro riscos, construía um maravilhoso desenho.

O Hélder não precisou de gastar os anos que por ele foram passando nos bancos das escolas, nem adquirir caros materiais nas lojas de Arte, porque os desperdícios das oficinas de madeira dos seus familiares lhe bastavam para criar formas ungidas de modernidade, construir composições com materiais humildes e dar-lhe identidade artística, utilizar as tintas e criar mundos cromáticos que não eram amálgamas, mas construções harmónicas, onde a complementaridade das cores funcionava e a beleza plástica ressaltava.

E o benefício da dúvida concedido, tempos atrás, ao jovem de 17 ou 18 anos pulverizou-se a seu favor. Dizem os latinos que “contra facta non valent argumenta”: Factos são factos. E o Hélder afirma-se já hoje, como um dos valores da mais jovem geração de artistas. Construiu a, sua linguagem, optando, em alguns dos seus trabalhos, pela bem difícil linguagem da arte matérica, e noutros, por composições nitidamente construtivistas e neofigurativas, utilizando o desenho natural dos cortes dos troncos “de madeira, o material da sua justificada predilecção.

Se a Arte se não pode separar do homem e os talentos artísticos andam sempre de mãos dadas com as qualidades humanas, a maior que o Hélder tem é a sua grande humildade, a que juntarei a alegria de viver a Arte, transformando o sonho que parecia frágil, na realidade de poder ser chamado de Artista. Com um imenso e promissor percurso à sua frente.

Mestre Carlos Lança, (Presidente da A.N.A.P-Associação Nacional de Artistas Plásticos), Porto-2001

“O Outro Lado das Coisas”

Pintura/ Objecto

VER, SENTIR…

“O outro lado das coisas” é uma forma de passar para além da imaginação, de ver o que subsiste no outro lado de lá das coisas que, além de mais, se sentem também…É questão de sensibilidade, e mesmo de evasão à realidade. Indispensável, por vezes.

Hélder Mendes, em sucessiva maturação do seu criativo percurso, vai traduzindo dizeres e símbolos de expressão pessoal, significando muitas das coisas que, sublimados nos seus gestos de realização artística, ultrapassam a simples condição de referências do quotidiano de todos nós; mais do que simples”olhar sobre as coisas”, a análise deste jovem autor é a forma singular de proceder a uma observação que lhe é (simples, talvez…) corrente, mas nem por isso menos significante.

Muito recentemente galardoado com o Prémio Rotary International, num concurso de jovens pintores, o autor é mais do que uma simples referência de esperança na arte que se vem realizando entre nós mais recentemente, uma vez que se assume uma certeza na convicção que se lhe reconhece.

Esta exposição do artista, na sua terra natal, terá o mérito acrescido de credibilizar um talento já reconhecido no exterior do seu recanto de origem. Afinal, é um processo recorrente, natural mas, talvez até por isso mesmo, indispensável.

As obras mostradas agora, mais recentes umas, anteriores na sua feitura outras, são o testemunho de uma entrega muito séria a uma actividade nem sempre entendida e mesmo, muitas vezes, desvalorizada: a criação artística. Mas afinal o homem é por natureza, um criador, um repositório de ideias, sonhos e aspirações. Para além das convicções que movem os nossos sentidos.

Hélder Mendes é um dos artistas da nova geração que prende a minha atenção, a mim, que há longos anos venho percorrendo o trilho das incertezas e dos sonhos nunca completados, na angústia de os conseguir mais expressos…

Deste jovem há que legitimamente, aguardar muito mais. Hélder Mendes tem com ele a resposta que, também legitimamente, aguardamos nos traga em breve: a confirmação de sua potencialidade criativa em termos abrangentes e inequívocos. Sobretudo para os mais cépticos, uma vez que para nós, que o visualizamos na sua verdadeira dimensão criativa, ele é uma certeza. Hoje como amanhã.

Edgardo Xavier, Membro da A.I.C.A, Associação Internacional de Críticos de Arte Estoril-2001

Tal como Torrens, um galaico-português de méritos já reconhecidos, também Hélder Mendes se deixou fascinar pelos materiais fazendo deles o “primus movens” do seu discurso estético.

A cor, as texturas e o próprio aroma das madeiras são fonte da inspirada intervenção que vem fazendo de há uns anos a esta parte. A apropriação e redescoberta do real à luz de conceitos que fizeram a história da Arte no século XX, são a base da pesquisa que se renova, com crescente qualidade, à medida que este jovem autodidacta se informa e amadurece.

Ambicioso mas humilde, determinado mas dúctil, preserverante mas atento e sensível, Hélder Mendes pinta com volumes, esculpe com os contrastes da matéria e tece, em linguagem já própria, uma Arte que todos os dias se redimensiona para dar corpo à sua avidez de diferença.

Mestre Carlos Lança, (Presidente da A.N.A.P – Associação Nacional de Artistas Plásticos), Porto, Abril-2000

Um percurso promissor…

Hélder Mendes é um jovem artista que, entre a pintura e a recuperação de materiais (madeira, no caso concreto) vai construindo uma obra de assinalável firmeza e sólida expressão artístico-plástica. Não se bastando a exercícios de pequenas dimensões, as obras que realiza apresentam uma inusitada (e “inesperada”) lucidez quanto aos processos técnicos e soluções formais, adquirindo uma expressão de evidente valia e cariz criativos que se assinalam com natural satisfação.

Convicto, assumindo os riscos de uma opção criativa, não fácil perante as referências existentes e enquadradas em correntes bem definidas, Hélder Mendes não se inibe quanto a referência que lhe é marcante (referência, que não recorrência, e a distinção é fundamental nesta apreciação…), no caso, Lucio Muñoz, um autor espanhol de reconhecida mestria e que, internacionalmente, terá sido influência para muitos autores, sobretudo nas últimas décadas do século que vai findando.

Buscando a representação das coisas mais comuns, mas contornando as inerências de uma leitura facilitada (o que leva os observadores do seu trabalho a um exercício interpretativo quanto ao objectivo do autor), ele caracteriza as suas criações por detalhes de evidente impacto no que respeita, sobretudo, à inteligente “arquitectura” que suporta a constituição das excelentes peças que vem realizando.

“Sublimação da Matéria” (e as suas Interpretações) é uma exposição-referência, na medida em que, entre nós sobretudo, não é comum o surgimento de tal expressão plástica, designadamente, pela pujança revelada pelo autor que, da inovação da expressão que o serve, faz um percurso que, muito embora recente, se afirma com firmeza bastante para impor-se, tanto a nível nacional como -e disto estamos pela nossa parte convictos – internacional. Assim as habituais condicionantes o possibilitem…

Os valores que, prioritariamente, servem a concepção do trabalho deste jovem autor: determinam a lucidez dos seus propósitos, sendo de realçar a extrema e meticulosa atenção que coloca na elaboração das suas interessantíssimas obras; as suas interpretações das coisas mais comuns ao quotidiano que qualquer de nós vive e constata nos detalhes / coisas mais vulgares, são determinantes para o resultado final que busca. E todavia a forma como Hélder Mendes as caracteriza, possibilita-nos o exercício de uma poética captação das imagens, dessas mesmas e tão vulgares coisas com que nos cruzamos…

Talvez resida mesmo aqui, e nestes pormenores, uma das mais cativantes razões (e fundamentos) para o apreço expresso que as obras do artista deixam perante a análise ou observação menos comprometida que façamos.

O tempo virá a determinar ainda muita coisa quanto ao trabalho de Hélder Mendes; mas estamos certos de que será, sobretudo, a confirmação de muita qualidade que é possível antever.

Hélder Mendes, expressão de alguma forma singular no panorama das artes plásticas do momento presente entre nós, poderá vir a constituir uma certeza de grande impacto na arte dos próximos tempos, em Portugal. Bastará tão sómente e para isso, que se não deixe perder dos seus objectivos. E acreditamos que ele também o sabe.

Com a determinação e singela honestidade que se lhe reconhece, o artista não trairá as expectativas…

Prof. Henrique Silva (Presidente do Projecto N.D.C), Vila Nova de Cerveira, Abril de 2000

Premiado na X Bienal lnternacional de Arte de Vila Nova de Cerveira com o prémio aquisição “Baviera”, Hélder Mendes, jovem artista de futuro promissor, explora a matéria com um “à vontade” misto de ingenuidade e mestria técnica, que nos permite pensar ter um lugar na arte contemporânea portuguesa.

Jean-Michel Correia, Director Pedagógico dos Ateliers do Carroussel, Musée des Arts Décoratifs, Palácio do Louvre, Paris, 7 Junho de 1999

Tive a oportunidade de ver no Centre Culturel da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris a exposição de trabalhos de artistas seleccionados para a atribuição da Bolsa Arpad Szenes e tendo ficado muito interessado pelo trabalho da madeira do artista Hélder Nicolau B. Mendes.

Os três trabalhos apresentados são de grande qualidade. A peça de 1997 “O caixote” testemunha uma verdadeira maturidade artística. Os trabalhos “Camisa” e “A Cidade” são de uma grande invenção tanto pela escolha do tema como pelo aspecto plástico. A técnica utilizada da madeira bruta que integra a própria casca como material pictórico é muito rica.

Encorajo portanto vivamente o artista Hélder Nicolau B. Mendes a prosseguir a sua pesquisa.